Economia Política Cultura e Arte

Este blog tem o interesse de discutir e fazer provocações sobre temas que vão do cotidiano à política, economia, cultura e arte. Lógico que sem querer ser mais sério do que o rei e nem mais vagabundo que o malandro da praça.

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09.05.07

Boa Noite e bom descanso

Foi apenas um boa noite e bom descanso. Não! Não foi apenas um boa noite e bom descanso. Foi um boa noite e bom descanso com desejo que a noite fosse boa e de descanso.

Junto à volição pendurou-se um grande sorriso. Sorriso num rosto cansado. Sorriso num rosto verdadeiro.

Saí do trabalho por volta das 11h00. Um dia pra deixar lamentar no limbo do esquecimento. É que nem dor de dente que só de lembrar a gente nunca mais quer ter.

Duas reuniões, com uma delas cheia de tensão. Ser humano é bicho engraçado. Poderia resolver coisas simples de modo simples. Mas a gente aprendeu desde criança com o grito da mãe ou do pai, com o chicote estalando no ar ou a sandália pendurada na mão ameaçadora: fez merda, né cagão! Então toma! Então toma! Então toma, fi de quenga! Dependendo do lugar quenga vira puta, vagabunda, rapariga, enfim, é uma mera questão de cultura local, de regionalismos.

Terminei um trabalho e já tem outro. Tem mais um relatório e mais um sei lá o quê. E se não tivesse apareceria, que nem redemoinho no meio do nada da caatinga quente do sertão. Minha vó dizia: é o diabo, meu filho! Faz figa com o dedo que o vento leva de volta pro inferno. Mulher sabida essa dona Luzia.

É verdade que no meio de tudo ainda fiz coisas que queria. Participei de um laboratório de comunicação alternativa. Uma amiga maluca que teima em querer contribuir com sua força e idealismo para o crescimento de uma mídia alternativa. É verdade, sim,ela é bastante alternativa. Vai continuar mudando o mundo. Ah se vai! O projeto se chama Ciranda e já sou um cirandeiro. Nada mais adequado pra quem é Leão do Norte. Fui entrevistado; eu mesmo editei minha entrevista; tiraram fotos; botamos tudo dentro de um saco só e jogamos dentro do espaço virtual, e lá estava eu. Desconfio que esta é só uma forma mais moderna de roubar nossa alma e jogar dentro de um lugar qualquer. Os índios também são gente muito sabida.

Voltei ao trabalho. Não é que não goste dele. Pode até ser meio masoquista, mas realmente trabalho sem botar gosto ruim no que faço. É que foi só um dia muito cansativo.

Então peguei o ônibus em frente a Heitor Penteado: não queria andar que nem vento soprando pensamento por aí. Queria era sentar e descansar corpo e mente. Às 11h00 da noite, no alto da Lapa isso é possível.

Até o metrô, por esses lados, os ônibus não são tão lotados. Entrei e sentei. Não pensava em nada. Cérebro vagabundo, voa sensato por aí. Chegando em frente ao metrô me preparei pra descer e, do nada, ou melhor seria do tudo, o cobrador, um senhor, algo em torno de sessenta, me deseja boa noite e bom descanso. Sorrindo sinceridade. Não sabe quão em paz me deixou (talvez saiba) com coisa tão simples.

Crianças são simples. Fazendo, aprontando, mesmo depois de vários castigos, elas são simples. Sempre aprendem a ser gente boa pra desejar muitas boas noites e bons descansos. Ficam esperando em seu trabalhinho, sentadas em sua cadeira, aguardando com toda a paciência alguém pra desejar ser feliz. Crianças e idosos são pessoas muito sabidas, também.

  • criado por  marquinho criado por marquinho
  • Postado em 21:02:27

24.04.07

O Negócio é Chapa Quente

    De becos escuros soam os mais silenciosos estampidos de violência. Ela faz parte do dia a dia. A morte, o assassinato, as intrigas, o cheiro podre de vingança e traição, podem ser banais ou motivados pela complexa rede de tramas humanas, mas resultam numa só coisa: uma arma na mão e alguém estendido no chão.

    A comédia Chapa Quente, uma adaptação do mundo dos quadrinhos, leva o público, de forma humorada, a esse labirinto, viela imensamente escura de incertezas que é a vida. As esquinas guardam surpresas; o cara de gorro na esquina é uma surpresa; você não sabe no que vai dar buscar a “baranga” na favela com um desconhecido. Nada é presumível; tudo se desvela. Coisa alguma sai ao gosto do freguês. Afinal, o que é a vida se não um jogo de probabilidades?


Onde: Centro Cultural Vergueiro

Quando: Sábado e Domingo (28 e 29 - últimos dias)

  • criado por  marquinho criado por marquinho
  • Postado em 14:12:49

Acelerar Demais Pode Nos Levar ao Muro

categorias: Economia Política
É interessante perceber como o pensamento único às vezes nos pega de jeito e fica difícil, até para as melhores cabeças, fugir do seu enrendo. Quanto àqueles que insistem em nadar contra a maré, sobram certos adjetivos que não se dignam ser ostentados diante de parentes e amigos.

O debate sobre crescimento da economia brasileira tornou-se uma verdadeira cruzada: ou conseguimos ou morremos na praia, atrasados na luta incessante pelo desenvolvimento. Há riscos de ficarmos para trás, observando o cavalgar ligeiro de gigantes como China e Índia, os manga-largas nessa corrida do crescimento. Entretanto, poucos ousam questionar de que tipo de crescimento está se falando. Para quem e quais podem ser os seus resultados globais. Aliás, ousar questionar tal evidência passou a ser considerado atestado ou de loucura ou de insensatez. Bom mesmo é crescer, não importando muito para que lado e a que custo.

Naturalmente, essa discussão torna-se mais difícil devido ao uso tradicional do PIB como índice de avaliação de progresso e criação de riqueza de um país. O próprio presidente Lula, em seu discurso de apresentação do Programa de Aceleração do Crescimento, acentuou a dimensão da renda como forma de diminuir as desigualdades do país. Sendo assim, a melhor distribuição da renda e a diminuição de disparidades regionais deveria ser um foco a ser observado no PAC.

Por mais encantador que seja o discurso de nos tornarmos um pouco mais ricos por meio da elevação da renda, é preciso jogar um pouco de água na fervura: não adianta ser rico num mundo privado de recursos naturais como a água; ou devastado por catástrofes resultantes do aquecimento global. Além do mais, não há garantias de que a simples elevação da variável renda, como tem anualmente demonstrado o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, por meio dos relatórios desenvolvimento humano, eleve por sua vez a qualidade de vida das pessoas.

Estas observações são necessárias para nos colocarmos uma questão fundamental: vale a pena crescer devastando? Apenas para se ter uma idéia do problema, um dado preocupante é constantemente divulgado por ONGs ligadas ao meio ambiente, segundo as quais o nível atual de produção mundial exige da terra 20% a mais do que ela poderia dar, ou seja, se é pra crescer desse jeito é melhor começar a fazer a contagem regressiva.

É necessário, portanto, colocar o PAC na sua devida perspectiva: um programa cuja finalidade é, a partir das bases atuais de mensuração, contabilizar monetariamente a circulação de produtos e serviços na economia brasileira de um ano a outro. Por meio tanto do PAC quanto do PIB obteremos informações ralas sobre nosso desenvolvimento, se é que estamos nos desenvolvendo.

O debate sobre desenvolvimento deve envolver perspectivas humanas com o conseqüente aperfeiçoamento de indicadores alternativos já existentes e a criação de outros que representem melhor a realidade do país e, porque não, de Estados, regiões e municípios. Este parece ser o grande desafio a todos e todas nós colocado.

  • criado por  marquinho criado por marquinho
  • Postado em 12:27:17